Acordamos tarde no domingo. O dia estava lindo e ensolarado lá fora, mas preferi ficar na cama, em silêncio, relembrando tudo o que tinha acontecido na noite passada.
O Lucas estava do meu lado, com os braços por baixo da cabeça, olhando para o teto. Acho essa pose dele sexy demais. Quando ele percebeu que eu estava acordada, sorriu para mim e esticou o braço. Me aconcheguei e me aninhei nele toda. É, sem dúvidas, o meu melhor lugar no mundo.
Depois de um tempo, ele me perguntou:
— Gostou da noite, meu amor?
Senti aquele frio na barriga na mesma hora. Me veio à mente o rosto daquela senhora de cabelos brancos do caixa, fazendo exatamente a mesma pergunta na hora de ir embora. Naquele momento, de madrugada, achei cedo demais para pensar a respeito. Mas agora, na luz do dia, já estava na hora de avaliar os prós e os contras da nossa ação. Afinal, apesar da surpresa que ele me fez, aquilo foi algo premeditado por nós dois.
— Foi uma surpresa muito grande — respondi. — É diferente de tudo o que eu pudesse imaginar… mas eu gostei. E você?
— Eu gostei demais! — ele disse, com os olhos brilhando. — Adoro você bem puta, me deixa com muito tesão.
Comecei a acariciá-lo e brinquei: “Safado!”. O resto da manhã seguiu com os detalhes de uma transação matinal deliciosa.
Mais tarde, tomei banho e fui preparar o nosso café da manhã. De repente, enquanto estávamos ali sentados à mesa, me deu um estalo. Percebi que estávamos conversando sobre as coisas que aconteceram na noite anterior com a maior naturalidade do mundo, como se estivéssemos comentando uma ida ao shopping. Foi bizarramente natural.
O Lucas riu e disse uma coisa que não esqueci nunca mais:
— Você era a mulher mais bonita da “Escadinha”.
Rimos juntos, porque ele acabou de dar o apelido perfeito para aquele lugar. Mas ele continuou, sério:
— Você é linda. Não percebeu os homens te olhando?
Eu percebi os homens e as mulheres. Mas só pensei, guardei para mim.
A verdade é que eu nem me acho tão linda assim quanto o Lucas enfatiza, mas aquela manhã me fez perceber uma coisa: a maioria das mulheres ali não eram deusas de capa de revista.
Eram mulheres comuns. Gordas, magras, novas ou velhas. Mas eram pessoas que tiveram a coragem de se permitir sentir prazer com seus parceiros (ou não). Estar ali exige uma coragem foda para se permitir sentir prazer além do nosso corpo e dos julgamentos. E agora, eu também estava entre elas.